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Caminhar à noite pela quebrada bolando estratagemas de sobrevivência – 09/07/2024 – Veny Santos

O rolê era perto de casa. Dava para ir andando. Uma amiga, uma mesa, várias opções de comida e bebidas em novo espaço aberto na zona leste de São Paulo. Com música ao vivo, o ambiente não deixava nada a desejar, somente a vontade de comer uma opção de cada cardápio. O funcionamento ia até meia-noite, o que permitia voltar de ônibus. Preferiu retornar a pé para economizar passagem.

Ao se despedir da companhia e esperar, por segurança, que ela desaparecesse no horizonte penumbrado, prendeu a respiração por alguns segundos. Como se som e pressão despencassem, a partir daquele momento era preciso ser frio, calculista e atento. No percurso de um quilômetro e meio, não tinha espaço para curva no pensamento. Aguçou os sentidos, corrigiu a postura e começou a traçar os estratagemas necessários para sobreviver à rua no horário em que a lei do silêncio se submete à do mais forte.

Em 2024 ainda é preciso ser ligeiro e não vacilar, mesmo na sua área, mesmo em qualquer quebrada.

Estava frio. Protegeu a cabeça com o capuz e pensou, em seguida, “está cobrindo muito minha cara, polícia vai me parar”. Deixou o rosto um pouco mais exposto, mostrando os óculos de armação grossa e preta. “De repente, se olharem pra minha cara vão achar que eu estou voltando do trabalho, que sou só mais um nerd, algo assim”, torcendo para que as lentes transparentes —num completo paradoxo criado pelo medo— ofuscassem o tom mais escuro de sua pele.

“RG está comigo, pelo menos”, pensou ao praticamente enquadrar a si mesmo para conferir se deixaria alguma ponta solta na abordagem. Embora ciente de que nada de comprometedor constava na pequena bolsa de ombro, sabia que se cismassem com ela, um dos maiores pesadelos poderia se tornar real: o de ser forjado. Até quem não deve, teme. Nas periferias, quarenta gramas não garantem nada. Nem zero.

“Vou apertar o passo, mas não muito, senão vão achar que estou com algum B.O.” Analisando o território, como passava por uma longa avenida, considerou estratégico ir pela pista de caminhada. “Se a viatura me parar, ao menos estou num espaço mais iluminado. E se algum maluco na função vier me roubar de moto, terá dificuldade para chegar até mim… De repente consigo correr”, pairavam tais ideias em ritmo cabuloso dentro da cabeça. Paranoia, neurose. Precisava prestar atenção em tudo, interna e externamente —onde há luz, onde há sombra. Quando ser Yin e quando ser Yang.

Se para uns ele precisava se narrar por inteiro, para outros era necessário virar sujeito oculto; enquanto buscava se proteger do frio de 15 graus, também colocava a cara para gelar no intuito de não gerar desconfiança; apertava o passo, mas desacelerava o ritmo, queria correr sem parecer correria; nos cruzamentos, era ele e os dedos, lutando contra o tempo infinito dos faróis estalados de vermelho. “Se me parar, não tem conversa, não tem câmera, não tem questionamento, não existe militância que me proteja, não há argumento que mude o pensamento da farda que pratica o mal”, repetia para não esquecer. “Proceder está comigo, pelo menos.”

Não tinha andado nem trezentos metros. No entanto, a mente longe já estava a bolar formas de despistar inimigos de todos os lados —à direita, à esquerda, pelo centro. Em meio ao fogo cruzado passava o quebrada que, entre a lei do silêncio e a do mais forte, sabia que é a da selva que a todos abocanha.

Nem cabeça muito baixa, nem olhar diretamente nos olhos, é fechar a cara e mirar para frente com extremo foco. Cada carro que se aproximava, um calafrio. Cada escapamento de moto, um cala a boca. Sem dar um pio, foi caminhando e, aos poucos, reconhecendo sua vila. As adegas-tabacarias enchendo calçadas diminuíam quando se abandonava a avenida e adentrava o bairro. Nele, a imagem familiar e, de certa forma, tranquilizante das fogueiras rodeadas por gente em silêncio contemplando as chamas.

Com as ideias menos frenéticas, percebeu em quantos detalhes teve que pensar para retornar vivo. Fez seus próprios estratagemas de quebrada.


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