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Guru do tecno-otimismo, aos 76, busca vida eterna via IA – 09/07/2024 – Tec

Sentado perto de uma janela dentro do hotel Four Seasons de Boston, com vista para um lago cheio de patos no jardim botânico da cidade, Ray Kurzweil segurava uma folha de papel mostrando o quanto de poder computacional poderia ser comprado por um dólar nos últimos 85 anos.

Uma linha verde-neon subia constantemente pela página, como fogos de artifício no céu noturno.

Essa linha diagonal, ele disse, mostrava por que a humanidade estava a apenas 20 anos da singularidade, um momento hipotético em que as pessoas se fundiriam com a inteligência artificial (IA) para se aperfeiçoar, impulsionadas por um poder computacional milhões de vezes superior ao que é fornecido atualmente pelos cérebros biológicos.

“Se você criar algo milhares de vezes —ou milhões de vezes— mais poderoso do que o cérebro, não podemos antecipar o que isso fará”, disse o pioneiro da IA, usando suspensórios coloridos e um relógio do Mickey Mouse que comprou na Disney World no início dos anos 1980.

Kurzweil, um inventor e futurista renomado que construiu uma carreira com previsões que desafiam o senso comum, fez a mesma afirmação em seu livro de 2005, “A singularidade está próxima: quando os humanos transcendem a biologia”. Após a chegada de tecnologias de IA como o ChatGPT e esforços recentes para implantar chips de computador dentro da cabeça das pessoas, ele acredita que é hora de reafirmar seu ponto. No fim de junho, ele publicou uma sequência: “A singularidade está mais próxima” (ainda sem edição em português).

Agora que Kurzweil tem 76 anos e está se movendo muito mais devagar do que costumava, suas previsões carregam um risco a mais. Ele sempre disse que planeja experimentar a singularidade, se fundir com a IA e, dessa forma, viver indefinidamente. Mas se a singularidade chegar em 2045, como ele afirma que chegará, não há garantia de que ele estará vivo para ver.

“Até um jovem saudável de 20 anos poderia morrer amanhã”, disse ele.

A previsão dele, porém, não é tão absurda quanto parecia em 2005. O sucesso do ChatGPT e de tecnologias semelhantes encorajou muitos cientistas da computação proeminentes, executivos do Vale do Silício e capitalistas de risco a fazer previsões extravagantes sobre o futuro da IA e seus efeitos no curso da humanidade.

Gigantes da tecnologia e outros investidores com muito dinheiro estão injetando bilhões de dólares no desenvolvimento de IA, e as tecnologias estão se tornando mais poderosas a cada poucos meses.

Muitos céticos alertam que previsões extravagantes sobre inteligência artificial podem desmoronar à medida que a indústria luta com os limites dos materiais brutos necessários para construir IA, incluindo energia elétrica, dados digitais, matemática e capacidade de processamento. O otimismo tecnológico também pode parecer míope —e arrogante— diante dos muitos problemas do mundo.

“Quando as pessoas dizem que a IA resolverá todos os problemas, elas na verdade não estão olhando para as causas desses problemas”, disse Shazeda Ahmed, pesquisadora da UCLA que explora afirmações sobre o futuro da IA.

O grande salto, é claro, é imaginar como a consciência humana se fundiria com uma máquina, e pessoas como Kurzweil se embolam para explicar como exatamente isso aconteceria.

Nascido na cidade de Nova York, Kurzweil começou a programar na adolescência, quando os computadores eram máquinas do tamanho de uma sala. Em 1965, aos 17 anos, ele apareceu no programa de televisão da CBS “I’ve Got a Secret”, tocando uma peça de piano composta por um computador que ele projetou.

Ainda estudante na Martin Van Buren High School, ele trocou cartas com Marvin Minsky, um dos cientistas da computação que fundou o campo da inteligência artificial em uma conferência no meio dos anos 1950. Logo depois, matriculou-se no Instituto de Tecnologia de Massachusetts para estudar com Minsky, que se tornara o rosto dessa nova busca acadêmica —uma mistura de ciência da computação, neurociência, psicologia e uma crença quase religiosa de que máquinas pensantes eram possíveis.

Quando o termo “inteligência artificial” foi apresentado ao público durante uma conferência de 1956 no Dartmouth College, Minsky e os outros cientistas da computação reunidos lá não acharam que levaria muito tempo para construir máquinas que pudessem se igualar ao poder do cérebro humano. Alguns argumentaram que um computador venceria o campeão mundial de xadrez e descobriria seu próprio teorema matemático dentro de uma década.

Eles foram um pouco otimistas demais. Um computador não venceria o campeão mundial de xadrez até o final dos anos 1990, e o mundo ainda está esperando por uma máquina que descubra seu próprio teorema matemático.

Depois que Kurzweil construiu uma série de empresas que desenvolveram desde tecnologias de reconhecimento de fala até sintetizadores de música, o presidente Bill Clinton lhe concedeu a Medalha Nacional de Tecnologia e Inovação, a maior honra do país por conquistas em inovação tecnológica. O inventor continuou a ganhar reconhecimento à medida que escrevia uma série de livros sobre como seria o futuro.

Por volta do início do século, Kurzweil projetou que a inteligência artificial se igualaria a inteligência humana antes do final dos anos 2020 e que a singularidade ocorreria 15 anos depois. Ele repetiu essas previsões quando os principais pesquisadores de IA do mundo se reuniram em Boston em 2006 para celebrar o 50º aniversário do campo.

“Houve risadinhas educadas”, disse Subbarao Kambhampati, pesquisador de IA e professor da Universidade Estadual do Arizona.

A IA começou a melhorar rapidamente no início dos anos 2010, quando um grupo de pesquisadores da Universidade de Toronto explorou uma tecnologia chamada rede neural. Esse sistema matemático poderia aprender habilidades analisando vastas quantidades de dados. Ao processar milhares de fotos de gatos, poderia aprender a identificar um gato.

Era uma ideia antiga, rejeitada por pessoas como Minsky décadas antes. Contudo, começou a funcionar surpreendentemente bem, graças às enormes quantidades de dados que o mundo havia carregado na internet —e à chegada do poder computacional bruto necessário para analisar todos esses dados.

O resultado, em 2022, foi o ChatGPT, que foi impulsionado por esse crescimento exponencial no poder computacional.

Geoffrey Hinton, o professor da Universidade de Toronto que ajudou a desenvolver a tecnologia de rede neural e pode ser mais responsável por seu sucesso do que qualquer outro pesquisador, uma vez rejeitou a previsão de Kurzweil de que as máquinas excederiam a inteligência humana antes do final desta década. Agora, ele reconhece que foi um chute perspicaz.

“A previsão dele não parece mais tão boba. As coisas estão acontecendo muito mais rápido do que eu esperava”, disse Hinton, que até recentemente trabalhava no Google, onde Kurzweil lidera um grupo de pesquisa desde 2012.

Hinton está entre os pesquisadores de IA que acreditam que as tecnologias que impulsionam chatbots como o ChatGPT podem se tornar perigosas —talvez até destruir a humanidade. Mas Kurzweil é mais otimista.

Ele há muito tempo previu que avanços em IA e nanotecnologia, que poderiam alterar os mecanismos microscópicos que controlam o comportamento de nossos corpos e as doenças que os afligem, irão se opor à inevitabilidade da morte. Em breve, ele disse, essas tecnologias irão prolongar vidas a uma taxa mais rápida do que as pessoas envelhecem, eventualmente atingindo uma “velocidade de fuga” que permitirá às pessoas estenderem suas vidas indefinidamente.

“Até o início dos anos 2030, não morreremos por causa do envelhecimento”, disse ele.

Se ele puder alcançar esse momento, Kurzweil explicou, provavelmente poderá alcançar a singularidade.

Mas as tendências que ancoram as previsões de Kurzweil —simples gráficos de linha mostrando o crescimento do poder computacional e de outras tecnologias ao longo de longos períodos de tempo— nem sempre continuam da maneira que as pessoas esperam, disse Sayash Kapoor, pesquisador da Universidade de Princeton e coautor da influente newsletter online “AI Snake Oil” e de um livro com o mesmo nome.

Quando um repórter do New York Times perguntou a Kurzweil se ele estava prevendo a imortalidade para si mesmo em 2013, ele respondeu: “O problema é que eu não posso ligar para você no futuro e dizer: ‘Bem, eu consegui, vivi para sempre’, porque nunca é para sempre.” Em outras palavras, ele nunca poderia provar que está certo.

Mas é possível provar que ele está errado. Sentado perto da janela em Boston, Kurzweil reconheceu que a morte vem de muitas formas, e ele sabe que sua margem de erro está diminuindo.

Ele lembrou de uma conversa com sua tia, uma psicoterapeuta, quando ela tinha 98 anos. Ele explicou sua teoria da velocidade de fuga da longevidade da vida —que as pessoas eventualmente alcançarão um ponto em que poderão viver indefinidamente. Ela respondeu: “Você poderia por favor se apressar com isso?”

Duas semanas depois, ela morreu.

Embora Hinton esteja impressionado com a previsão de Kurzweil de que as máquinas se tornarão mais inteligentes do que os humanos até o final da década, ele não está tão convencido com a ideia de que o inventor e futurista viverá para sempre.

“Acho que um mundo dirigido por homens brancos de 200 anos seria um lugar horrível”, disse Hinton.

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