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Redes sociais distorcem instintos morais humanos – 29/06/2024 – Reinaldo José Lopes

Como já aconteceu algumas vezes nesta coluna, eu gostaria de começar com um item terminológico meio feioso, mas muito útil. Anote aí, por gentileza: “estímulo supernormal”. O termo é usado em áreas como a psicologia ou o estudo do comportamento animal para designar um tipo de estímulo que imita o que podemos encontrar na natureza, mas cuja potência está muito acima do que é natural (daí o uso do prefixo “super”).

Um exemplo gastronômico: frutas silvestres são um estímulo “normal” quando o assunto é açúcar. Por outro lado, um sorvete de morango com leite condensado definitivamente é um estímulo supernormal, feito para capturar nosso desejo natural de consumir coisas doces por meio de uma bomba calórica que uma planta seria fisiologicamente incapaz de produzir na natureza.

Ora, conforme argumenta um novo estudo, o mundo online pós-redes sociais funciona como um gigantesco combo de estímulos supernormais no que diz respeito aos instintos morais da nossa espécie. E o resultado pode muito bem ser o equivalente da diabetes (pensando, de novo, no leite condensado) para as noções de certo e errado de quem fica cronicamente enfiado na internet.

É uma perspectiva assustadora, concordo, mas há bons argumentos para enxergar a coisa nesses termos no trabalho recém-publicado por Jay Van Bavel, do Departamento de Psicologia da Universidade de Nova York.

Junto com dois colegas, Van Bavel fez uma análise dos dados já disponíveis sobre o comportamento das pessoas nas redes sociais, levando em conta o que sabemos sobre as raízes da moralidade humana. As últimas décadas mostraram que, debaixo das diferenças de usos e costumes mundo afora, podemos enxergar padrões comuns no que diz respeito a esse tema em muitos lugares.

Sabemos que as pessoas tendem a valorizar laços de solidariedade e reciprocidade dentro dos grupos sociais aos quais pertencem, a usar a capacidade de empatia para oferecer ajuda a quem necessita e a defender a punição de quem não segue essas regras. Acontece que o mundo das mídias sociais despeja uma torrente desse tipo de conteúdo olhos e ouvidos adentro das pessoas.

Isso acontece, em parte, porque gente revoltada e/ou moralmente extremista tende a postar e compartilhar com muito mais frequência informações sobre despautérios reais ou imaginários. Pessoas nesse estado emocional (ou fingindo que assim estão) tendem a monopolizar a conversa online (afinal de contas, gente feliz não fica xingando Deus e o mundo no Twitter).

Mas, mais importante ainda, esse tipo de conteúdo gera engajamento (curtidas, compartilhamentos, comentários), e engajamento é o que interessa ao algoritmo das plataformas. Resultado: é isso que acaba sendo entregue para a maioria dos usuários. E o ciclo se reforça.

Os possíveis resultados disso não são nada simpáticos. Há indícios de que esse ambiente pode gerar, por exemplo, “fadiga de compaixão” –o mero ato de compartilhar um pedido de ajuda ou doações parece suficiente para o usuário, diminuindo sua necessidade emocional de estender a mão a pessoas reais.

Isso talvez explique porque mobilizações em favor de alguma causa que nascem no meio online tendem a ser menos duradouras e a criar menos pressão política do que as que surgem por meios tradicionais, dizem os pesquisadores.

Ao mesmo tempo, há a ascensão de “linchamentos virtuais”, nos quais é possível fazer ataques virulentos a desconhecidos por supostas transgressões com mínimo risco e custo para quem se arroga o papel de juiz online. O risco aí é não apenas para quem vira alvo desses ataques como também para a comunidade, porque repetidos casos como esses podem facilitar o surgimento de comunidades opostas de quem se diz injustiçado (com ou sem razão), ou até dessensibilizar as pessoas contra a seriedade real de um problema, como o racismo ou a homofobia.

O design atual das redes sociais potencializa todos esses problemas. É, portanto, urgente regulá-las, mas, enquanto isso não ocorre, vale uma regra de ouro: nunca se comportar na internet de uma maneira que você não teria coragem de bancar se estivesse cara a cara com quem está falando.


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